Romãs, ondas e outras tradições: o que se revela ao olhar o réveillon?

O ano de 2020 foi duro e as comemorações de réveillon são uma forma boa de marcar o encerramento do ciclo. Muitas formas de comemorar a passagem de ano têm sentidos mais profundos e às vezes dizem mais do que parece no primeiro momento.

Sentido do termo

Réveillon é um termo difícil que usamos com frequência. Vindo do francês, ele é definido como “refeição festiva feita na noite que precede o Natal e o dia de Ano”. Também está ligado à ideia de alvorada, amanhecer ou acordar. Mas tomar esse momento de festa pela definição de dicionário sobre de seu nome deixa muitos elementos de fora dessa história.

A ideia de ciclo está presente em todos os calendários que o homem utiliza ou utilizou durante a história. Assim celebrar o final de um calendário para o início de outro faz parte da natureza humana desde quando ele começou a contar o tempo.

No Brasil, a festa de Ano Novo confunde-se com as festas do ciclo natalino, especialmente em zonas mais interioranas do país. Também existem vários traços que podemos conectá-la às religiões afro-brasileiras, estando presente nas celebrações de diversas partes do país. No período colonial, os homens e mulheres escravizados aproveitavam que nesse período também dava-se a “renovação” de roupas e outros utensílios de trabalho para celebrar sua fé, especialmente no dia 1º de janeiro.

Alimentos e práticas

Alguns alimentos, como a lentilha e a romã, têm uma conexão com a ideia de fartura e fecundidade, desde os tempos pré-cristãos. Assim, consumir romãs é algo que desde os romanos significava fertilidade, especialmente em casamentos. No cristianismo, a romã foi lida como uma grande metáfora para a relação entre os homens e Deus.

Nas regiões litorâneas, o costume que é muito presente são os pulos sobre sete ondas para poder garantir um ano tranquilo e próspero. O costume, esse ligado especialmente com as religiões afro-brasileiras (mas não só elas), tem vários sentidos ligados à água, associada a Iemanjá, mas também ao ressurgimento da consciência do indivíduo. A água tem um valor muito grande nas diversas religiões e mitologias como esse veículo entre mundos, o natural e o sobrenatural. Além disso, a quantidade de ondas que se deve pular, sete, também é significante. Esse número aparece vinculado com a divindade em diversas crenças, sendo uma espécie de número mágico que representaria a junção total entre o divino e humano.

Um outro elemento, esse muito singular, é a associação entre cores e expectativas para o ano novo. Utilizar alguma peça com determinadas cores (vermelho para amor, amarelo para dinheiro…) para simbolizar o que se deseja para o ano que se inicia é um costume encontrado não só no Brasil. Peru e Equador são lugares onde essa tradição vigora também. Porém existem apontamentos que o costume de passar réveillon vestido inteiramente com peças de branco, no Brasil, tem origem nos anos 1960, quando grupos de candomblé e de umbanda frequentados pela classe média carioca reuniam-se na praia de Copacabana para celebrar a passagem do ano. Sendo um lugar bastante “central” no imaginário das pessoas, os frequentadores da praia de Copacabana acabaram “lançando moda” para o país inteiro.

Em outros lugares

As comemorações são fenômenos vivos e se modificam com o tempo e com as influências que vão se fazendo presentes de forma cada vez mais intensa, visto a circulação de pessoas e ideias ter aumentado e dinamizado nos últimos 50 anos. Exemplo disso pode ser visto na Rússia. Com a revolução de 1917, houve uma intensa campanha para ressignificar elementos como a árvore de Natal e o Papai Noel. Eles passaram a vincular-se ao réveillon, virando “a árvore do ano novo” e o “Vovô Gelo” (que é auxiliado por sua neta Donzela do Gelo). Hoje, na Rússia e nas antigas repúblicas soviéticas pode-se encontrar “árvores de ano novo” ao lado de mesquitas, sinagogas e templos budistas.

Nos EUA, se organizam festas nas casas que duram a noite toda, já no Japão existem várias tradições seguidas pelas pessoas. Chama a atenção a festa de fim de ano com um forte apelo da cultura do trabalho, se comemorando com os colegas da firma em festas (muitas vezes no plural) com fartas doses de cerveja e sake. Em família, os japoneses (e outros povos orientais) fazem uma grande limpeza na casa – para retirar as energias negativas do ano que finaliza – e se faz um café da manhã especial com família.

Seja em família ou com amigos, numa casa no meio do mato ou na cidade, o importante para esse fim de ciclo de 2020 é se cuidar para que romãs, ondas, lentilhas, café da manhã em família ou o “Vovô Gelo”, nos encontrem em 2021. Kanpai!

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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