O mundo chega em casa pelas ondas do rádio em vozes, cantos e bips

Há mais de 120 anos entre nós, o rádio fez a guerra, divulgou a paz, informa e diverte. Ele deixou o móvel do canto da sala e está em todos os bolsos, em novos formatos

O ano de 2020 ficará marcado como “o ano que o mundo parou”, visto que a chegada e expansão da Covid-19 obrigou as pessoas a isolarem-se em casa, numa situação que, apesar dos paralelos, em muito superou a famosa “Gripe de 1918”. Uma tecnologia que naquele tempo vinha engatinhando, nos 100 anos seguintes cresceu, tornou-se uma das mídias mais importantes da humanidade (e para além dela, já que seus sinais estão em todo o sistema solar) e está presente, com várias roupagens, no cotidiano de praticamente toda a população mundial.

O rádio pode não ser o mesmo dos idos do Século XX, quando ainda era uma grande novidade, mas ele tem um papel importante, nas grandes cidades, nos campos e áreas isoladas do mundo, trazendo todo tipo de entretenimento e informação. Saíram os equipamentos complicados e extremamente frágeis, com ajustes difíceis, apareceram as transmissões on-demand (podcast, você está entre nós!), os aparelhos portáteis e multifunção (olá, smartphone!).

Primórdios do rádio

O rádio, assim como muitas tecnologias, não pode ser atribuído a um só pai (ou mãe). Na verdade até mesmo a “data de nascimento” é um pouco confusa, visto que foi necessário o desenvolvimento de várias novas técnicas e materiais para que esse aparelho funcionasse. O Século XIX foi um período muito fecundo para essas descobertas e, na década de 1880, transmitir voz a distância não era bem um segredo. Linhas de telefone e telégrafo já estavam presentes pelo mundo todo. Existiam até mesmo serviços de “assinatura de notícias” que eram transmitidas via equipamentos telefônicos na Europa Central. A descrição das ondas eletromagnéticas por James Maxwell (dec. 1870) e sua comprovação por Heinrich Hertz (1888) possibilitaram o início do desenvolvimento de equipamentos para transmitir a voz humana sem fios.

A criação desses equipamentos de transmissão e de recepção são atribuídos a Guillermo Marconi, um inventor e industrial italiano que mostrou a transmissão sem fios em 1896. Contudo, Nikola Tesla e Roberto Landell de Moura (respectivamente nos EUA e no Brasil) conseguiram desenvolver tecnologias semelhantes anos antes, assim como muitos outros inventores em diversas partes do mundo nos anos finais do Século XIX e iniciais do Século XX.

A polêmica da paternidade do rádio entre Tesla e Marconi dá-se pois o italiano utilizou-se de muitas patentes de Tesla para desenvolver seu sistema de transmissão. Junta-se a isso que transmissões de voz (como as que Landell fez em São Paulo antes de 1900) precisaram do desenvolvimento de tecnologias que ainda não estavam consolidadas, o que apenas se dá a partir de 1906.

Diferente do telefone que permite que o equipamento seja um emissor e um receptor ao mesmo tempo, no rádio essas duas partes (receptor e transmissor) são equipamentos distintos. Usando a tecnologia criada a partir dos conceitos de Maxwell e Hertz, um mesmo aparelho poderia conectar-se a diversos transmissores e cada transmissor podia ligar-se a vários receptores ao mesmo tempo. Os pioneiros que o viram como uma evolução do telegráfo ou mesmo do telefone entendiam isso como um problema, pois qualquer equipamento sintonizado na frequência do emissor poderia ouvir a conversa. Mas aquilo que era um problema tornou-se um diferencial, pois possibilitava que transmissões públicas pudessem ser disponibilizadas para multidões em várias localidades apenas pelo girar de um botão.

Por que 13 /02?

Assim o rádio vai deixando de ser uma curiosidade científica para tornar-se uma atividade de passatempo, com milhares de pessoas transmitindo e ouvindo emissões caseiras, especialmente na Europa e na América do Norte. O uso prático se dava como “telegrafo sem fio” para embarcações em alto-mar. Foi a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) que mudou esse panorama dramaticamente, sendo o rádio usado como instrumento de comunicação militar e depois dela, o serviço de rádio tornou-se popular. Exemplo disso é que a BBC (British Broadcasting Corporation) foi fundada em 1922, tornando-se posteriormente um importante e popular meio de comunicação na Inglaterra e mesmo mundial.

O rádio torna-se uma febre. As transmissões começam oficialmente e regularmente em vários países desde então: URSS tem sua primeira transmissão radiofônica em 1921, os EUA em 1920 têm sua primeira rádio comercial, na Argentina, as transmissões regulares começam em 1920 e no Brasil em 1923. O uso do rádio como instrumento de diversão, informação e propaganda espalhou-se e foi capital durante a Segunda Grande Guerra (1939-1945) na Europa e na Ásia.

A reorganização política que veio com o fim da guerra possibilitou o surgimento da ONU (Organização das Nações Unidas), que também viu no rádio um importante instrumento de difusão de ideias e conhecimento, fosse para público em geral, fosse nas zonas onde a ONU intervia. Assim surgiu a Rádio ONU em 13 de fevereiro de 1943 e em 2010 foi criado o “dia mundial do rádio” em homenagem não só ao serviço de rádio como a todos os profissionais que envolvem-se com esse meio de difusão de cultura e conhecimento.

Givaldo Corcinio - historiador - ABC Digital

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