O moleque de ouro não passou despercebido nem nos gramados nem na vida

Como o tango, Diego Maradona é o símbolo de um tempo da Argentina, levou olhares do mundo para um “pibe” das favelas de Buenos Aires que fazia milagres com a bola nos pés e surpreendia não só nos campos

Algumas coisas são marcas incontestes de um tempo, de um grupo social e de um lugar no qual elas estão inseridas. Assim, futebol e tango estão inseridos em espaços muito semelhantes quando olhamos para a Argentina. Ambos surgem de grupos periféricos, de trabalhadores braçais e imigrantes, que procuram no espaço urbano uma alternativa de vida. São esses trabalhadores que, afastados das belas calles portenhas com certo sabor europeizado, movem o principal aglomerado urbano, industrial e social da República Argentina.

É dessas bordas da cidade que surgem expoentes de uma vivência ao mesmo tempo muito local e muito universal. Diante das dificuldades e da pobreza dessas condições foram forjados elementos que se tornaram identitários para os muitos argentinos. O tango nos bares próximos ao porto e o futebol nas várzeas dos subúrbios da cidade reuniam as pessoas em momentos de lazer e, à medida que essas expressões culturais se tornaram famosas, puderam oferecer para seus praticantes caminhos para superar as condições que ali encontravam.

Um dos moradores dessas favelas portenhas e filho desses trabalhadores era Diego Armando Maradona. Encontrando no futebol um meio para fruir suas vontades, passou também a representar para muitos dos seus conterrâneos um motivo para suplantar o árduo cotidiano e o esporte, que já era o mais popular do país, passou a ter um jogador diferenciado, que fazia muito mais do que apenas jogar bola, elevando em muito o que os aficionados chamam de “espetáculo”.

Lembrando que esse espetáculo também é um lucrativo negócio, a possibilidade de ir para o exterior era uma solução para as difíceis condições econômicas e sociais. E el Pibe D’oro (O moleque de ouro) não foi exceção entre os jogadores naqueles dias da década de 1980, num momento em que muitos países sul-americanos, assim como a Argentina, encontravam-se, mais uma vez, em grave crise. Estando na Europa, seu futebol foi mais visto e mais admiradores obteve.

Mas se dentro das canchas espanholas e italianas ele foi elevado ao status de deus, na vida particular ele continuava um mortal, com falhas, dificuldades, contradições e polêmicas. Seu vício em drogas o lançava das páginas esportivas para aqueles que tratam dos assuntos do cotidiano amiúde. O “deus” era visto soterrado nas angústias cotidianas daqueles que buscavam alguma escapatória do ordinário da vida.

Maradona fez parte de uma classe de jogadores de futebol que se envolveu em diversos setores da vida pública do seu país, e mesmo para além de suas fronteiras. Vivenciando o desastre que foi a guerra das Falklands (ou Malvinas, com ainda hoje é para os argentinos), não escondeu o prazer de ter “metido a mão” nos ingleses em 1986. Três anos depois, em entrevista exclusiva para a TBC, discorreu sobre as esperanças que depositava – e fez crer que muitos argentinos compartilhavam de suas esperanças – no governo recém-eleito de Carlos Menem, depois de anos difíceis do pós-ditadura com Raul Afonsín. Não negava olhar tudo por um viés peronista, apoiando políticos e ideias a partir desse conceito de mundo. Foi ativo fora das quatro linhas e fora do mundo do futebol, tendo sido técnico de futebol, sem muito sucesso, e apresentador de TV, com melhor sorte e algum sucesso.

Tendo parado de jogar há quase 23 anos, toda uma geração de torcedores não o viu jogar, mas se beneficiou das imagens que ficaram gravadas nos mais diversos suportes, porém hoje os ídolos são mais midiatizados do que ele, fazendo com que eles editem bem a imagem que desejam passar para seus fãs-consumidores. Mas sem dúvida o futebol teve em Maradona um personagem que foi emblemático do espírito de uma época, moldando a identidade de grandes grupos dentro das fronteiras de seu país, das paredes dos estádios que atuou e na comunidade invisível daqueles que são aficionados não só pelo esporte, mas também pela humanidade que “La mano de Dios” expressava em suas atitudes e palavras de alguém que era, em essência, periférico e, por isso mesmo, central no mundo do futebol.

Givaldo Corcinio – Historiador – ABC Digital

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