No campo a origem de tudo: da salada ao combustível aeroespacial

O homem do campo não é mais aquele sobre o qual contavam para nós. A agricultura passa por dilemas e modernizações, e às vezes podemos nos surpreender onde a agricultura pode impactar

A agricultura é um tema que evoca imagem bastante consagradas na cabeça de todos. Podemos começar apontando a vinculação dessa atividade humana com o surgimento das cidades, das industrias e mesmo do conhecimento, com quem compartilha sentidos profundos, conectando o trato com as plantas com o desenvolvimento da sabedoria, ambas chamadas de cultura. Podemos associar com elementos econômicos, traçando seu papel na balança de pagamentos de um país ou de uma região, sua capacidade de ocupar a população local ou evocar uma imagem idealizada do “homem do campo”, com uma lista quase infindável de adjetivos positivos.

Cada um desses caminhos é correto, mas é preciso perceber que a atividade agrícola tem muitas facetas, especialmente na atualidade, suplantando em muitos aspectos aquilo que se fala dessa ocupação, a qual, verdadeiramente, está entre uma das mais antigas da humanidade.

Obrigado a homem do campo ou a multinacional agroexportadora?

A imagem consolidada, quando se procura apresentar o “homem do campo”, é de alguém que está mais próximo de um estilo rústico e simples de vida, onde aflora o contato com a natureza para que a produção se efetive. Essa imagem, muito cativante, por vezes pode ser bastante distante do que é possível encontrar nas plantações atualmente. O fornecimento de alimentos frescos (como hortaliças e legumes) para os centros urbanos muitas vezes dependem de pequenos produtores que buscam melhorar o rendimento de suas propriedades localizadas nos arredores dos centros consumidores.

Hoje, a tecnologia faz parte da lida cotidiana e transforma a forma como a produção se realiza, com a incorporação de computadores, GPS, técnicas e suplementos desenvolvidos por instituições especializadas, como a Embrapa ou Emater. Já outros produtos, como cereais ou alguns tipos de frutas, acabam sendo produzidos em um sistema quase industrial, distante da imagem do sitiante que trabalha com sua família, onde é a escala que possibilita lucros, e para que sejam significativos dependem de altos investimentos.

Aquilo que é produzido por essas empresas acaba sendo compreendido como commodities, produtos negociados nos grandes mercados, com cotações em bolsa e contratos de longo prazo, e ajustados entre corporações, em dólar ou outra moeda forte, como matérias-primas para outros bens.

Do remédio à armas, agricultura em todas as partes

É normal pensar que os produtos agrícolas se vinculam especialmente com a alimentação ou com “produtos naturais”, como tecidos. Contudo, diante dos desafios que a produção de bens de consumo impõem, muitas empresas procuram soluções que aliem baixos custos e matérias-primas já existentes. No Brasil, a resposta dada pelo governo e pela industria automobilística, a partir dos anos 1970 para a crise do petróleo, com o desenvolvimento do motor a álcool, pode ser apontada como exemplo dessa busca.

O incentivo ao biodiesel produzido a partir de oleoginosas, - como mamona, palma e soja ou de gorduras animais -, vem já dos anos 2000, buscando não só reduzir o consumo de petróleo, como aproveitar a capacidade de utilização de subprodutos da industria alimentícia e a expansão do agronegócio. Entretanto, outras industrias, como a de produtos cosméticos e de remédios,  usam derivados de milho, como o amido, para produzir pós e comprimidos, ou a industria bélica e aeroespacial, que lançam mão de farelos para combustível.

Revoluções na terra e pelos produtos da terra

A produção agrícola passou por muitas transformações e foi crucial por muitas transformações da sociedade em todas as eras. A Europa da Idade Média vivenciou profundas mudanças sociais no momento em que as técnicas de produção agrícola possibilitaram um ganho de rendimento, com o uso de menos mão de obra. Surgiram daí novos grupos sociais, que não eram vinculados à nobreza “de sangue”, mas também não estavam mais sujeitos ao regime de servidão: os artesãos, que podiam se dedicar a produzir outros bens que não os agrícolas, e a burguesia que podiam viver nas cidades – burgos – comerciando tais bens entre os feudos.

Já nos séculos XIX e XX, o desenvolvimento de melhores meios de transporte e de conservação possibilitou que produtos agrícolas fossem buscados de fontes mais distantes, pressionando áreas que anteriormente tinham produções para necessidades locais fossem transformadas em “celeiros” nacionais ou mundiais, com efeitos significativos no meio ambiente e nas práticas tradicionais locais. Isso ocorreu no mar de Aral, na antiga URSS entre os anos 1960 e 1980, ou ocasionou conflitos de diversas ordens entre nações ou grandes proprietários e povos tradicionais.

Outras visões para a terra

As revoluções técnicas possibilitaram que regiões do Cerrado brasileiro e das franjas da Floresta Amazônica, por exemplo, deixassem de ser consideradas terras impróprias para produção agrícola nos anos 1950, para tornar-se fronteira de expansão da produção nacional. Isso ocorreu ao custo de um importante investimento em preparo da terra para a produção de larga escala para exportação e devido à implementação de uma cadeia produtiva focada na monocultura.

Nos últimos anos, toda ordem de questionamentos sobre o impacto sobre o meio ambiente desse tipo de produção gerou a necessidade de um modo diferente de agricultura, que tem feito com que o espaço rural veja soluções diversas.Surgiu a produção que busca atender às demandas do consumidor a partir de um trato diferente com a terra, onde a produção se alia ao cuidado com os recursos locais.

Aqueles que lidam com a terra, que estão longe dos esteriótipos cantados e apresentados pela mídia por diversos meios, são fundamentais para a manutenção da cotidiano dos indivíduos e das organizações. Devem ser celebrados a cada abastecimento de combustível, a cada refeição ou a cada vez que precisamos tomar um comprimido para cuidar da saúde.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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