Nascimentos, proteção e presentes: símbolos natalinos são mais do que simples enfeites

O que colocamos nas festas desse período do ano têm origens e significam memórias por vezes muito mais amplas do que apenas um senso estético para celebrar essa que é uma das principais datas do cristianismo e das sociedades por ele influenciadas.

As festas de fim de ano criam nos indivíduos sensações de esperança e anseio pelo fim da jornada anual, do ciclo que se iniciou no janeiro anterior. E nesse ano de 2020, essa sensação é ainda mais intensa com a crise da pandemia da Covid-19 que modificou profundamente o nosso modo de relacionar-se com as pessoas e reforçou o desejo de “recomeço”.

Esse período do calendário sempre foi propício para festejos. Cabe lembrar que celebrações do próprio solstício de inverno (21 de dezembro no hemisfério norte) eram comuns mesmo antes da cristianização da Europa e acabaram sendo absorvidas pela Igreja, adaptadas aos dogmas trazidos pelos colonizadores. No Brasil colonial, as comemorações do período natalino (compreendido aproximadamente entre o dia 15 de dezembro e o 6 de janeiro, dia de Reis) inspiraram-se majoritariamente no modo europeu de celebrar. Enquanto se rezavam terços, novenas e missas em louvor ao Cristo nascido na manjedoura, em rituais elaborados e vistosos ao gosto dos dignatários da época, os festejos populares não eram menos vistosos, mas muito animados e concorridos. Comuns ainda hoje, reizados, Folia de Reis, bumba-meu-boi, além de procissões e bailes eram ainda mais presentes e moldavam as comemorações desse período.

Essas comemorações são vivas e dinâmicas como as comunidades que as celebram, construindo suas próprias formas de celebrar e significar essas "passagens". E tendo um papel importante na marcação do tempo nas comunidades, elas mudaram significativamente no decorrer dos anos. Se procissões e cantorias diminuíram, surgiram novos símbolos para homenagear o “aniversariante do dia”.

A chegada de cada um desses símbolos trouxe também um sentido para a comemoração. O Papai Noel, diferente do que se divulga por aí, não é responsabilidade exclusiva de uma única empresa – apesar de boa parte do seu visual atual no ocidente seja ligado à companhia de refrigerantes. Sua imagem primordial, que já estava presente no Brasil Imperial, é vinculada a um padre que foi considerado santo, São Nicolau, que saía para dar presentes incógnito para as crianças mais pobres de sua cidade. Essa atitude ajudou a espalhar a imagem de alguém que presenteia crianças “boazinhas” por toda Europa Oriental e Central, de onde começou a ser adaptada e transformada no Papai Noel que conhecemos no século 18. No Brasil ele desembarca junto com outros produtos que passaram a ser importados desde meados do Século XIX, com trajes pesados típicos de invernos nórdicos.

A árvore de natal, por outro lado, tem origem um pouco mais complexa. Alguns pesquisadores apontam a árvore como um resquício de velhas tradições anteriores a cristianização da Europa, onde certas árvores seriam “moradas de Deus” e faziam-se celebrações em louvor a divindade ao redor dessas árvores. Já outros pesquisadores nomeiam diretamente Martinho Lutero, monge que revolucionou a fé cristã, o que resultou no movimento protestante, como responsável pela adoção mais sistemática do pinheiro como um símbolo de “mistério de Natal”, sendo que pinheiro mantém-se vivo no mais pesado inverno e lhe foi atribuída toda uma associação com a trindade cristã.

Além disso, cabe bom lembrar as luzes que fazem a alegria de muitos que observam as árvores de natal nos lembram não só a narrativa de uma estrela guiando os reis magos mas também que esse é um período, na Europa, onde que período do inverno exigia o uso de velas por mais tempo em muitos lugares das residências por causa da pouca incidência de luz solar e os pinheiros acabavam também recebendo velas, o que causava um belo espetáculo, mas por vezes incêndio terríveis.

O costume de montar árvores para comemorar o natal no Brasil é bastante recente, sendo registrado a partir dos primeiros anos do Século XX. Já o costume da ceia farta pode ser apontado como uma articulação de tradições judaicas, assim como europeias pré-cristãs. A ação de comer junto é um momento importante nessas sociedades, especialmente sendo um momento de encontro e superação do isolamento que o frio traz a essas regiões. As festas coloniais brasileiras já traziam a fartura de alimento e grandes refeições desses dias especiais (e o Natal era um desses momentos) como forma de festejar a capacidade de ter alimentos. Doar alimentos também sempre foi importante nas festas, como nas Folias de Reis.

Apesar da celebração natalina ser central no cristianismo, os símbolos que associamos e ela são reapropriados por várias comunidades não-cristãs e ganham novos sentidos, fazendo que o ciclo natalino seja comemorado também fora da cristandade. Exemplo disso, segundo o autor João do Rio (1881-1921) é o camdomblé que nesse momento do ano celebra o casamento de Oxum e Xangô, união que ofereceu ao mundo a chuva benéfica.

E assim, no ciclo natalino com reizados do tempo colonial, um Papai Noel que remonta ao contato comercial entre Brasil e Europa ou um evento que está para além da narrativa clássica cristã, aproveitando assim o momento, que a celebração desse momento especial do ciclo anual faz a cabeça de crianças e adultos em toda parte.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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