Memória de Medos d’Outros Tempos: Doença de Chagas, uma velha desconhecida

Pode não ser uma cena catastrófica como aquelas gravadas nas memórias sobre grandes epidemias, mas a Doença de Chagas é uma doença que matou a muitos (e durante muito tempo) num engasgo

Quando falamos dos medos que advêm da ocorrência de doenças, nos vem à mente o terror que acomete as pessoas quando presenciam uma vaga de mortes inexplicáveis em um curto espaço de tempo. O volume de caixões e de internados, o badalar constante dos sinos a anunciar missas em memória dos falecidos e o choro constante daqueles que perderam seus entes queridos de forma veloz e feroz cala fundo na memória dos indivíduos e criam imagens realmente aterradoras. Contudo as doenças endêmicas, que perduram no tempo e no espaço, causam um medo difuso, de longo termo, que fazem as pessoas sentirem a dor da perda, mas numa forma mais atenuada, colocando tais desaparecimentos na ordem do cotidiano, do comum, do dia a dia. Tal condição fica ainda mais presente quando não existe uma designação clara, definitiva sobre o que acomete as pessoas. As endemias fazem com que os indivíduos convivam com a dita doença de modo que ela não parece tão devastadora, mesmo que seja a causa de muitas mortes no acumulado dos anos, pois elas estão distribuídas ao longo do tempo.

Goiás era conhecido no século XIX e início do XX como um lugar de febres e doenças espalhadas por toda parte. Internamente, a oposição entre litoral e sertão se pautava, entre outras coisas, pela oposição civilizado/arcaico, vista como sanitária e cultural. Já no plano internacional, o país como um todo era visto como um grande reservatório de doenças, ao ponto de algumas companhias marítimas oferecerem viagens entre a Europa e a Argentina (Buenos Aires recebe grandes contingentes migratórios nos fins do século XIX) sem escalas no Brasil, em especial no Rio de Janeiro (naquele tempo, existia o dito popular “O Rio de Janeiro é lindo de se ver… de longe”). O Brasil era tido como um imenso hospital.

Nesse cenário, fortaleceu-se toda uma produção científica que buscava entender e controlar as doenças que dizimavam silenciosamente populações inteiras. O Brasil faz grandes avanços e campanhas contra malária, febre amarela, dengue e cólera tomam conta do país, sob a intenção de modernizar e civilizar o povo e a nação. Cidades foram “reformadas” para acabar com os “ares e águas pútridas” e espaços de trabalho foram modificados sob a orientação de médicos como Oswaldo Cruz e Carlos Chagas. E é durante a construção da expansão da Ferrovia Central do Brasil rumo a Minas Gerais que Carlos Chagas, durante campanha de erradicação da malária no canteiro de obras da FCB, descobre uma nova doença que afetava grande parte da população local, que causava inchaço de órgãos como o coração, o esôfago ou o intestino. Essa doença tornou-se conhecida como Doença de Chagas, por ter sido descrita pelo médico Carlos Chagas, mas ela estava (e está) presente em toda a América Latina, sendo comum nos espaços de residências precárias e próximas à mata. Ela não era completamente desconhecida, mas os cientistas tinham encontrado uma explicação e o causador do mal que já era conhecido, mas não muito claro para as populações antigas.

Depois da descoberta do causador do mal de Chagas (que recebeu o nome de Trypanosoma cruzi), o Instituto Oswaldo Cruz incentivou diversas expedições científicas que passaram a cruzar o país registrando e relatando aquilo que eles viam de problemático no sertão brasileiro para sustentar o projeto de higienização e modernização do interior do país.

Goiás foi singrado diversas vezes por viajantes. Alguns ilustres e afamados como August de Saint-Hilaire, que atravessa a província de Goyaz no ano de 1847. Ele, como bom naturalista e um estudioso da sua época, olhava e registrava com muito interesse tudo o que via durante seus deslocamentos. Ao passar por terras goianas, registrou que as doenças mais comuns eram a morféia (que ele classifica como uma elefantíase, mas hoje está claro que é a doença de Hansen) e hidropisia (um tipo de inchaço do ventre que acomete quem tem, entre outras doenças, mal de Chagas). Também era comum, segundo outros viajantes, o “mal de engasgo”, que poderia estar associado com os inchaços causados pela infestação de Trypanosoma cruzi, causador da Doença de Chagas. Apesar desses relatos, os registros oficiais não faziam menção mais aprofundada desses problemas, até mesmo porque muito do que sabemos sobre doenças, suas causas, transmissão e tratamentos são conhecimentos mais recentes, surgidos depois dos estudos de toda uma legião de pesquisadores médicos nos primeiros anos do século XX.

Sob demanda do Instituto Oswaldo Cruz, Pedro Neiva e Belisário Penna fizeram uma expedição que atravessou o Brasil, passando por Bahia, Pernambuco, Piauí e Goiás (incluindo o atual território tocantinense) buscando recolher informações sobre as condições de saúde desse sertão. E que retrato fazem esses pesquisadores! Na verdade, um retrato nada auspicioso para a imagem de terra salubre que políticos e intelectuais queriam forjar para Goiás. Neiva e Penna no seu relatório chegam a dizer que não exista vila ou cidade que não estivesse totalmente perdida pela idiotia, doença e cretinice (este termo associado a debilidade mental). Segundo eles, entre Porto Nacional e a cidade de Goiás existiam “núcleos de população [com] desde 60 a 300 indivíduos, na sua maioria idiotas, cretinizados, ou aleijados ou paralíticos, percorremos nós, onde dificilmente se deparava um semi-idiota capaz de dar algumas ligeiras informações. Inúmeros lugarejos onde 100% dos habitantes estavam atacados pelo terrível flagelo [o mal de Chagas] nas suas modalidades mais graves.

No momento essa expedição, apesar de terem posições diametralmente opostas, tanto os médicos do Instituto Oswaldo Cruz e a comunidade científica brasileira, que via Goiás como um grande território doente e esperando intervenção, quanto a intelectualidade goiana, que propagava aos quatro ventos a imagem de Goiás como sendo uma terra sem males, apesar de isolada, viam uma única possibilidade de transformação da realidade no “estado mais central do país”: a transferência da capital federal para o Planalto Central. Os médicos acreditavam que isso traria o saneamento e o controle efetivo dos vetores causadores de tantas doenças. Os políticos e intelectuais goianos viam a possibilidade de inserir-se num novo mundo de relações, onde as dinâmicas sociais mudariam com a proximidade do poder central. Ambos entendiam que isso modernizaria o povo, visto como atrasado e arcaico.

Após a descoberta do agente causador da doença, a despeito dos esforços de Carlos Chagas e de outros médicos e pesquisadores, não houve ações mais efetivas para o controle do vetor. Ações específicas contra o barbeiro, inseto que carrega o parasita, no Brasil vão começar efetivamente apenas nos anos 1960. Essas ações estavam mais ligadas a melhorias nas moradias (como incentivar que se faça reboco nas paredes e que se evite o uso do adobe na construção, por exemplo) e na eliminação dos insetos vetores da doença do que ações medicamentosas. Assim a doença, que na observação dos pesquisadores Neiva e Penna, afetava a maior parte da população em Goiás, foi satisfatoriamente controlada. Atualmente, a grande parte das mortes por Chagas são de pessoas com mais de 60 anos, o que indica que foram infectadas no passado e as novas infecções se dão por consumo de alimentos contaminados, como cana-de-açucar in natura ou caldo e açaí. Pode não ser um cenário catastrófico como os descritos em filmes e que está gravado nas memórias sobre grandes epidemias, mas mesmo com todo o combate que se fez e faz contra o barbeiro, por ano o Brasil tem mais de 6000 mortes, e Goiás conta com mais de 700 delas por ano em decorrência da doença.

Se atualmente estar em casa é uma ação de cuidado com a saúde, cuidar das condições da casa possibilita que não se faça parte das estatísticas dessa epidemia que o Triponoma cruzi causa. Que o nosso coração pode até inchar, mas de orgulho e felicidade.

Texto e pesquisa: Givaldo Corcinio/ABC Digital