Memória de Medos d’Outros Tempos: Varíola, bexigas e bexiguentos em Goiás

Goiás durante muito tempo teve uma espécie de barreira natural para o vírus, já que a viagem para essa parte do país demorava tanto que ou o indivíduo chegava curado – apesar das marcas que “ganhava” no rosto e no corpo – ou não chegava, ficando pelo caminho

“Ao fundo, por trás do balcão, estava sentada uma mulher, cujo rosto amarelo e bexiguento não se destacava logo, à primeira vista; mas logo que se destacava era um espetáculo curioso. Não podia ter sido feia; ao contrário, via-se que fora bonita, e não pouco bonita; mas a doença e uma velhice precoce, destruíam-lhe a flor das graças. As bexigas tinham sido terríveis; os sinais, grandes e muitos, faziam saliências e encarnas, declives e aclives, e davam uma sensação de lixa grossa, enormemente grossa.”
(Memórias póstumas de Brás Cubas)

A descrição acima foi feita por Machado de Assis e traz alguns dos aspectos mais gritantes dessa que foi uma das doenças mais antigas com a qual o homem teve que lidar: a varíola. Existem registros dela desde o Egito antigo e em 1980 foi considerada erradicada pela OMS por meio da vacinação. Já se encontravam receitas de imunização usando-se pus ou pó das feridas secas do doente em pessoas saudáveis (isso era chamado de variolização) desde o ano 1000 na Índia e na China. Isso devia-se pela observação de que só se adoecia uma vez de varíola e pela percepção de que uma forma mais atenuada da doença também poderia oferecer ao indivíduo imunidade a ela.

Goiás durante muito tempo teve uma espécie de barreira natural para o vírus, pois a sua distância dos centros urbanos e sua baixa densidade populacional dificultavam a “importação” da doença, já que a viagem para essa parte do país demorava tanto que se alguém doente viajasse para cá, ao chegar já tinha passado o período de transmissão. Assim ou o indivíduo chegava curado – apesar das marcas que “ganhava” no rosto e no corpo – ou não chegava, ficando pelo caminho.

Assim, enquanto o litoral do país, com os espaços urbanos mais populosos, volta e meia enfrentava surtos de varíola, Goiás tinha poucas ocorrências significantes até meados do século XIX. Até esse período, ficaram registrados um surto entre os índios Caiapó da aldeia de São José de Mossamedes em 1771 e outro em Meia Ponte (hoje Pirenópolis) em 1811.

Se até então Goiás gozou de uma situação ímpar, quase não sendo assolada pela doença, os séculos XIX e XX testemunham uma mudança significativa. “Aproximando-o” especialmente de São Paulo e Rio de Janeiro, capital do país e foco de muitas epidemias, as melhorias na ligação entre Goiás e o resto do país facilitaram também a chegada do vírus. Quando a ferrovia chega a Araguari (MG) em 1896 e a construção da Estrada de Ferro Goiás a partir de 1910, observa-se surtos mais frequentes de varíola.

No século XIX passa a desenvolver-se técnicas mais elaboradas para a imunização e, junto com ela, surpreendentemente, mais casos de rejeição da técnica são relatados. Muito se fala da Revolta da Vacina, ocorrida em 1904 no Rio de Janeiro, onde parte da população, recrutas da Escola Militar da Praia Vermelha, religiosos e políticos da oposição ao governo Rodrigues Alves foram às ruas contra a campanha de vacinação obrigatória promovida pelo sanitarista Osvaldo Cruz, na esteira das reformas urbanas promovidas no Brasil. Goiás também teve seus levantes contra campanha de imunização vacínica, porém muito antes. Em 1831, por exemplo, a população da cidade de Goiás “exilou” o presidente da província e sua família para uma quarentena em um sítio a três léguas (aproximadamente 18 quilômetros) depois que alguns membros dela terem se vacinado, por temor de que os vacinados pudessem transmitir a doença. Tal medo devia-se, provavelmente, pelo método de vacinação, braço-a-braço. Nesse método, depois de vacinado, o indivíduo deveria voltar ao polo vacinador para que fosse retirada a “linfa vacínica”, o “resultado” da inoculação do vírus da varíola bovina e que serviria para a vacinação de outros indivíduos. Note-se que no processo, costumava-se ferir o braço da pessoa a ser vacinada, o que acabava transmitindo sífilis para o paciente.

A sífilis era uma doença bastante comum, porém carregava um forte apelo moral, sendo vista como fruto de um pecado individual – ligado normalmente a uma vida sexual desregrada – ao passo que a varíola era vista como consequência de um pecado coletivo e, por tanto, um castigo divino. Assim, ter uma vacina que evitasse tal castigo era visto como “velhacaria”, um “presente de Satã” para impedir os desígnios de Deus. Havia também o medo dos imunizados ganharem características bovinas, ficando “avacalhados”, já que no fim do século XIX a vacina era produzida a partir de cowpox (varíola bovina).

Goiás teve, até os idos do século XX, alguns surtos da doença, sendo lembrados aqueles ocorridos em 1904, 1910 e 1926. O surto de 1904 veio por meio de um soldado que deveria ir até a cidade de Goiás, mas parou em Campinas. Como não era muito comum, não foi diagnosticada de imediato (na verdade, foram dois italianos que procuravam pouso na cidade que identificaram a doença, saindo rapidamente dela, assim como quem podia fazê-lo quando soube das bexigas). Nessa ocorrência, Campinas ficou isolada completamente do resto do estado entre 19 de janeiro e 21 de março.

No ano de 1910, existem registros de um surto na cidade de Goiás, mas não se soube ao certo se o causador foi varíola ou varicela (ou catapora), já que uma forma atenuada de varíola (conhecida por minor ou alastrim) era chamada de varicela naquele tempo e a própria varicela era chamada de catapora (os sintomas são parecidos, mas não iguais, e a varicela ainda é presente na atualidade e não tem a mesma mortalidade que a varíola apresentava).

Já no ano de 1926, o grande surto de varíola ocorreu em Trindade e no norte do estado, na cidade de São José do Duro (hoje Dianópolis/TO). Os registros do esvaziamento da cidade e das ações de isolamento ganharam força no imaginário da região. No Duro, famílias inteiras ficavam isoladas em suas casas e morriam sem que ninguém lhes socorresse, sendo que apenas quando as aves de rapina se apossavam das casas é que se tomava consciência do que havia ocorrido. Em vários casos, doentes eram abandonados à própria sorte. Em Trindade, os efeitos do surto foram maximizados por conta da passagem da Coluna Prestes e das tropas legalistas que a combatiam, pois tanto os revoltosos quantos os governistas, além de indivíduos doentes que traziam, também saqueavam as cidades e atacavam as colheitas, causando desabastecimento, o que enfraqueceu a população, que ficou faminta, facilitando ainda mais expansão da epidemia.

Uma vez contraída a doença, que matava 1 em cada 3 doentes em média, a população lançava mão das mais diversas formulações para tentar curar-se do mal. Para se proteger, em 1904 era recomendada a desinfecção das casas com óleo de rícino, creolina, folhas de jaborandi e cal. Antes, em 1866, os doutores Thomaz Cardoso de Almeida e Vicente Moretti Foggia recomendavam para os doentes de varíola “uma larga sangria de braço (de libra e meia de sangue)” o que equivaleria a 600 gramas, “sessenta sanguessugas sobre o estômago”, “uma bebida sudorífera”, “dois ou três purgantes de sal amargo” e dieta à base de arroz e caldo de galinha. O conhecimento popular durante muito tempo recomendou diversos preparados, talvez um dos mais exóticos era “Jasmim de cachorro”: fezes deste animal (de cor branca, devido ao fato de serem puro cálcio, resultante dos ossos com os quais se alimentavam os cães), que moídas se dissolviam em água. Esse “remédio” era difundido país afora, estando no imaginário popular e virando mesmo até tema de anedotas em lugares tão distantes entre si como a cidade de Goiás e no “Norte Novo” do Paraná (Maringá e região).

A varíola foi vencida, não sem grandes batalhas. Se em Goiás os mortos foram em número menos expressivo, diferente de regiões como Cuiabá (MT) que apenas na epidemia de 1876 (a qual durou 3 meses) perdeu mais de 6,5 mil habitantes (50% dos 13 mil moradores na época), isso não significa que a doença foi menos impactante. A vacinação foi a salvação no tempo, mas o isolamento também permitiu que Goiás se esquivasse do mal (já que Cuiabá, mesmo longe de São Paulo e Rio de Janeiro, era um forte polo de navegação, sendo um ponto de contato importante entre os países platinos – Paraguai e Argentina em especial – e a porção central do continente). Mesmo sendo comunidades pequenas, as mortes ocorridas em Goiás durante os surtos causaram grande impacto social e emocional, afinal elas eram sempre próximas de alguém conhecido, numa sociedade que se valia muito do conhecimento entre os indivíduos para funcionar. Mas até onde a sociedade atual é tão diferente disso?

Texto e pesquisa: Givaldo Corcinio/ABC Digital