Livros: objetos de ostentação e transformação

O livro é muito antigo na história do mundo, mas com o surgimento da imprensa tudo mudou e aquilo que ficava nas mãos e sob os olhos de poucos pode circular e alcançar mais pessoas

Anos atrás, fomos testemunhas de uma revolução: a chegada da computação pessoal e, posteriormente, a popularização da internet. Tais eventos prometeram informação variada, rápida e (quase) gratuita. É possível, como se dizia à época, que todo o conhecimento produzido até então estaria ao alcance dos dedos de qualquer um que tivesse as ferramentas adequadas e a curiosidade necessária para acessar este universo de saber e, por que não, entretenimento.

Mesmo sendo revolucionária, essa não foi a primeira vez que a humanidade esteve diante de um momento de viragem tão significativo no modo como se poderia ter acesso ao conhecimento, à opinião e mesmo a novas formas de lazer, redefinidas por um objeto e um método que hoje parece simples e comum, mas possibilitou revoluções de diversos tipos, levando a humanidade para um novo patamar.

A origem deste equipamento sem igual

O livro não é exatamente uma novidade. Sociedades de períodos anteriores ao medieval já reuniam seus escritos em volumes costurados para facilitar o manuseio e o transporte. Os rolos de papiro, couro ou outros suportes onde se escreviam ideias, códigos de leis ou observações sobre o mundo e mesmo os blocos de argila onde foram registrados os primeiros contratos conhecidos de compra e venda já tinham caído em desuso à medida em que este objeto compacto e portátil se popularizava entre os letrados.

Porém todos os formatos careciam de uma praticidade que só surgiu no final do Século XV: a possibilidade de uma cópia rápida e exata, e o nome que essa técnica inventada por Gutemberg passou a ser conhecida como imprensa. Assim se pode produzir livros muito mais rapidamente, pois você apenas precisava preparar uma versão do original para ser “carimbado” nas folhas em branco. Isso tornou o processo de produção e difusão de livros muito mais barato e rápido. Com o tempo, passou a ser comum a circulação de livros – em língua nacional e não mais em latim – e mesmo as traduções, o que ofereceu acesso a novos conteúdos e uma ampliação do universo de pessoas atingidas por essas informações.

Mais que um objeto de luxo

A imprensa demorou vários anos para chegar e estabelecer-se no Brasil, pois só depois da chegada da corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808 houve autorização oficial para a instalação de prensas e impressores na colônia. Antes disso, as poucas tentativas estavam ou ligadas a missões religiosas, ou algumas iniciativas de “homenagem política autofinanciada”.

Mas com a possibilidade real surgida com a autorização de 1808, passaram a surgir diversas “casa publicadores” em diversas cidades do país. Muitas dessas eram apenas gráficas que produziam especialmente jornais, mas iniciaram também a produção de folhetos, almanaques e mesmo pequenos livros.

No final do segundo reinado aumentou não só a produção de livros com autores locais como a importação e publicação de autores estrangeiros. O Rio de Janeiro tornou-se nesse período o principal centro publicador (posição tomada por São Paulo só no Século XX) e muitas livrarias tinham suas próprias editoras.

Foi nos anos 1930 que o mercado dos livros teve a grande virada, com a iniciativa de Monteiro Lobato de produzir seu livro Urupês na gráfica do jornal O Estado de S. Paulo e por meio da rede comercial do jornal oferecer o livro para ser vendido em outros espaços além das livrarias, como farmácias, empórios açougues e lojas de todo o tipo de material. Essa prática possibilitou uma popularização do livro, que tornou-se um bem mais acessível e portanto mais próximo das pessoas, mesmo que o analfabetismo de então fosse uma questão bastante presente na população brasileira.

Livros em Goiás

Goiás teve um desenvolvimento muito particular da indústria gráfica. Estando localizado longe dos centros urbanos mais pulsantes culturalmente, a produção literária ocorria de forma mais restrita. Muitas obras goianas acabaram sendo impressas fora do estado, fosse em Belo Horizonte, São Paulo e mesmo na antiga capital federal.

Foram marcos ainda hoje lembrados na produção de livros localmente a livraria Oió, que dos anos 1950 até os 1970 serviu de referência para quem buscava uma opção goiana para comprar e publicar livros. Sem editoras de destaque nacional, a produção literária goiana dependeu muito do subsídio governamental, fosse pelo uso das oficinas da Imprensa Oficial do Estado, fosse pelo investimento direto, por meio de financiamentos e patrocínios, e das gráficas de jornais, que produziram muitos livros “do autor” ou em parceria com editoras locais.

Monteiro Lobato é um personagem bastante controverso na história do pensamento brasileiro, com posições consideradas hoje em dia como racistas e de um nacionalismo arraigado, mas ainda assim podemos observá-lo como um incentivador da leitura e, por isso mesmo, do livro. E este objeto poderia, com seu acesso mais universalizado, moldar a sociedade e transformá-la. E você, que tal contribuir para a mudança e começar a ler um livro hoje?

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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