Gritos pela igualdade: a resistência que gerou o orgulho

Estar em um bar invadido pela polícia há mais 50 anos possibilitou a toda uma comunidade criar uma noção de pertencimento e de superação de desafios

Uma das características da sociedade atualmente é a possibilidade de se apresentar e discutir temas sobre sexualidade e pertencimento de modo aberto. Até mesmo como uma resistência a esse processo, vemos levantar a voz grupos conservadores com o mesmo vigor dos integrantes das comunidades LGBTQIA+ de buscaram formas de garantir respeito e igualdade de condições jurídicas e sociais. Esse movimento não é novo, mas teve um momento explosivo em 1969, nos EUA.

Uma saga: o bar, a polícia e os frequentadores

O mundo vivia momentos turbulentos no final dos anos 1960 e os EUA viviam particularmente esse período de modo intenso: Guerra no Vietnã, conflitos raciais, questões de direitos humanos e Guerra Fria eram apenas alguns dos problemas com os quais os norte-americanos lidavam. Nesse momento, a contra-cultura hippie e o questionamento oferecido por filosofias como o existencialismo têm grande prevalência na construção de uma identidade da juventude que questiona o american way of life.

A comunidade LGBT tinha que enfrentar na cidade de Nova Iorque, assim como em outras cidades do país, não só o conservadorismo das camadas dominantes, mas também o preconceito e ações de agentes públicos que negavam a eles direitos fundamentais, como a possibilidade de reunião ou mesmo de expressão. Relações homossexuais eram crime em todos os estados norte-americanos até 1962 (nesse ano, o estado do Illinois mudou seu código penal; até 2012 ainda existiam estados que criminalizavam tais relações) e estabelecimentos comerciais poderiam ser fechados caso tivessem funcionários gays ou servissem pessoas da comunidade LGBT.

Muitos points gays de Nova Iorque só operavam por serem da máfia (que pagava propina para policiais fazerem “vistas grossas”), mas ainda assim por vezes policiais faziam batidas nesses locais. A noite de 28 de junho seria mais uma onde a polícia invadiu o Stonewall Inn, um bar frequentado pela comunidade LGBT. Dessa vez, além de prender empregados e confiscar bebidas alcoólicas, os policiais prenderam alguns cross-dressers (pessoas que se vestiam com roupas do gênero diverso do biológico) sob a alegação de infringirem a “lei das três peças” (uma espécie de código informal que punia quem não usava ao menos três peças de roupa correspondente ao seu gênero biológico surgida no Século XIX para “inibir” mascaradas e uso de fantasias em vias públicas, mais usadas no Século XX para criminalizar a comunidade LGBT).

A movimentação policial gerou revolta entre as pessoas da região do Stonewall Inn, que acompanharam as prisões, mas acabaram por atacar os policiais, que precisaram se esconder no bar que tinham acabado de fechar para escapar das pedras e garrafas atiradas pela população indignada. Os conflitos continuaram por mais seis noites, tendo como resposta o envio de mais tropas policiais e mesmo a tropa de choque. Os conflitos apenas diminuíram depois que um jornal local, publicando matérias desfavoráveis aos revoltosos, quase foi incendiado.

O “mini-Stonewall” Brasileiro

O Brasil teve uma espécie de “revolta de Stonewall” em 1983, menor mas não menos significante. Porém, se nos EUA o estopim foi a ação policial, em São Paulo (palco da nossa versão dos protestos) foi a atitude do dono do bar que fomentou a revolta, ao expulsar duas clientes que faziam não só militância como vendiam um jornalzinho sobre a temática lésbica e sua articulação diante da sociedade da época. Como um ato de revolta e resposta, o bar paulistano foi invadido e houve a leitura de um manifesto contra a discriminação LGBTQIA+ em 19 de julho.

As batidas policiais nos bares gays de Nova Iorque não acabaram depois do conflito do Stonewall Inn, mas cada vez mais chamavam a atenção das pessoas sobre como a comunidade LGBTQIA+ era tratada pelo poder público. Surgiu desses conflitos e de todo o caldo cultural que estava presente nesse momento na cidade uma nova militância que no ano seguinte aos conflitos, em 1970, promoveu uma grande marcha por direitos e liberdades dos gays. Ela foi organizada em várias cidades americanas; no ano seguinte, as primeiras Marchas do Orgulho Gay tiveram lugar na Europa.

Se esses conflitos começaram a balançar as bases do conservadorismo na época, podemos ver que ainda hoje é necessário buscar garantir a todos o direito universal de ser diferente. Aqueles seis dias de embate entre a polícia de Nova Iorque e uma comunidade que não só tomou consciência de todo poder que tinha em potência, como começou a por esse poder em movimento, fizeram com que essa luta cotidiana ganhasse novas cores. Mas ainda há muito arco-íris para colorir, lembrando uma aliança diferente: por respeito.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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