Feridas e curas: uma rápida história da imunização

O ser humano tem buscado ao longo da história meios para prolongar e melhorar a qualidade da sua vida, o que deu força a vários indivíduos que afirmavam dominar a cura dos males do corpo ou da alma

Curar o corpo era uma questão de lidar com a doença já estabelecida. E até meados do Século XIX não era claro para os cientistas como elas se instalavam nos corpos, dificultando assim a pesquisa, o tratamento e a prevenção desses males. O que chamamos de terapia de imunização e todo o conhecimento a ele associado tem surgimento no Século XVIII, com as experiências e pesquisas de Edward Jenner, médico inglês que supôs existir relação entre a infecção por cowpox (ou varíola bovina) e uma certa proteção contra a varíola humana. Essa percepção - que se mostrou acertada - possibilitou o desenvolvimento da vacinação.

Sopros e agulhas: vacinando e mantendo a humanidade

Curiosamente este termo suscitou muito medo na população, visto ele lembra que o produto a ser injetado no organismo para a imunização vinha originalmente de vacas antes de ser "humanizado". Talvez não suscitasse tanto temor quanto a "variolização", técnica muito antiga (existem registros dela sendo utilizada no Egito Antigo) e que, num misto de crença religiosa e observação clínica, era soprado pó de cascas de feridas de varíola trituradas nas narinas dos pacientes buscando imunização. Sidney Chalhoub, pesquisador brasileiro que estuda as reformas urbanas do início do Século XX, conta que essa técnica era ainda bastante usada em zonas periféricas do Rio de Janeiro durante o período da “revolta da vacina”, em 1904.

Na verdade, esse primeiro modelo de vacinação que usava a secreção do braço de um indivíduo imunizado para ser inoculado em outro há muito foi deixado de lado, à medida em que o conhecimento no campo da microbiologia se desenvolveu, possibilitando o "cultivo in vitro" de agentes causadores de doenças e, a partir de 1840, retirar diretamente das vacas o material para ser inoculado nos pacientes.

No Brasil se faz ciência

O Brasil tem experiência com vacinas desde muito cedo. Desde os primeiros anos do Século XIX já se fazia vacinação “braço a braço”, o chamado método desenvolvido por Jenner. Com o desejo de melhorar a imagem do Brasil (que era visto pela opinião pública especialmente da Europa, como “uma terra de todos os males”) a monarquia implementa ações de pesquisa e produção de vacinas e métodos de imunização e saneamento do país dos males tropicais, criando o Instituto Vacínico, no Rio de Janeiro, que procurava preparar materiais para a inoculação de vacina anti-varíolica.

Além do Instituto Vacínico da Corte em 1846, surgiram o Instituto Bacteriológico (hoje Instituto Adolpho Lutz) e o Butantan no ano de 1893 em São Paulo, quando de uma epidemia de peste bubônica em Santos, a Fundação Ataulpho de Paiva (em 1900 como Liga para o tratamento da Tuberculose), a Fundação Oswaldo Cruz como Instituto Sorológico (em 1900, para pesquisa de peste bubônica e febre amarela) ambas no Rio de Janeiro, entre diversos outros institutos e fundações pelo país com o objetivo de pesquisar doenças que acometiam a população e imunizá-la desses males.

Cem mil em anos, 10 milhões em um dia

O Brasil tornou-se exemplo de campanhas de imunização especialmente depois de 1973, quando foi lançado o Plano Nacional de Imunização, que focou nos esforços de atendimento e vacinação contínua de crianças, além de campanhas intensivas para a eliminação de doenças como sarampo e poliomielite. Porém, encontramos esforços de imunização em diversos países, buscando por meio de campanhas pontuais massificadas, abranger vastas quantidades de pessoas e criando uma proteção universalizada, reduzindo a circulação dos agentes causadores dessas doenças.

Apesar de Edward Jenner se deslocar por diversas cidades buscando difundir seu método de imunização, podemos apontar que a primeira mobilização que agiu assim foi no México, em 1805, quando ainda era território espanhol, quando aproximadamente 100 mil pessoas receberam vacina contra varíola. Nos EUA, experiências importantes de vacinação em massa foram feitas nos anos 1940 em Nova Iorque, onde mais de 6 milhões de pessoas foram vacinadas em um mês.

Ver esses números permitem refletir ainda mais sobre o feito que o Plano Nacional de Imunização brasileiro obteve, ao imunizar em um único dia 10 milhões de crianças em 1980, o que justifica ele ser tomado como exemplo mundial.

Novos e velhos riscos, soluções bem conhecidas

O atual cenário desafia todo o sistema de saúde nacional (e mesmo mundial). A vacinação tem se mostrado um caminho importante para superar o desafio. Além de doenças novas ou pouco conhecidas, como a Covid-19, que acabam suscitando dúvidas sobre a segurança e eficiência das vacinas para algumas pessoas, a sociedade brasileira tem se visto às voltas novamente com doenças bem conhecidas e que já são combatidas por vacinas comprovadas ao longo das décadas, como o sarampo, e até mesmo o risco de retorno da pólio.

A vacinação é uma ciência com um grande acervo de conquistas e dificuldades, mas muito maiores são as dificuldades enfrentadas por crianças e adultos que adoecem gravemente devido a não-vacinação. Já conferiu se a sua carteirinha está completa?

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital
 

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