Férias e museus podem combinar mesmo em tempos de isolamento

Museus foram espaços de consolidação de poder e de uma narrativa “vencedora”; mas hoje são espaços de reflexão e conhecimento

É muito comum no período de férias pais ou grupos organizarem para conhecer novos lugares ou rever aqueles que são importantes para si. Muitas vezes, quando estamos desejosos de dar um “upgrade cultural” no nosso acervo, uma opção comum é visitar o “museu da cidade”.

É comum que alguém viaje para centros mundiais – como Paris ou Nova Iorque –, ou nacionais, como Rio de Janeiro ou São Paulo, e visite ao menos um desses espaços de cultura e identidade, mesmo que não o identifique como museu. Esse tipo de espaço aparece também em muitos filmes – e não só em documentários – como sendo lugar da ação, ou onde a aventura ganha um aspecto diferente e, muitas vezes, inusitado.

Museu, para que serve

O termo museu tem uma história longa: está ligado à Grécia Antiga, já que o moiuseîon era o lugar de culto às musas – deusas que ajudavam a humanidade a desenvolver as artes, a cultura e o conhecimento –, e também um misto de biblioteca e universidade para o aprendizado dessas “ciências” (que naquele tempo ainda não era definida como fazemos hoje).

Mesmo que ainda atualmente algumas pessoas se comportem nos museus como se estivessem em templos religiosos, a instituição museu como é presente em diversas cidades do mundo tem uma origem menos “divina”: está ligada à doação de acervos de colecionadores para o poder público, ainda no século XVII.

Esses colecionadores reuniam tudo que podiam sobre as “descobertas” europeias, desde escritos sobre as novas terras conquistadas até animais empalhados, desenhos de plantas ou de paisagens, ou objetos dos povos dessas regiões. Soma-se a isso o surgimento de um “novo homem”, mais consciente do conhecimento desenvolvido na sua época e curioso em aprofundar-se no conhecer, “cultivando a sabedoria das ciências e das artes”, crescendo o interesse por essas coleções e as ações para a formação de acervos.

Formando museus

Em 1683 surge na Inglaterra o primeiro museu como entendemos hoje. Ele foi uma doação particular, que tinha destino bem definido: a criação de um museu na universidade de Oxford. Depois disso, doações deram origem a museus como o do Prado na Espanha; e a aquisições como a efetuada pelo Parlamento Britânico, em 1759, que deu origem ao Museu Britânico. Um dos museus mais famosos do mundo, o Louvre, fundado em Paris no ano de 1792, teve seu acervo montado durante a Revolução Francesa, quando o governo revolucionário reuniu obras de arte tomadas da monarquia e obtidas durante a guerra.

Um museu nunca é inocente. Tem muito de consolidação de poder, construção da ideia de pátria e patriotismo, assim como de identidade. Durante o século XIX e XX houve uma expansão na implantação de museus pelo mundo. Ainda hoje existem muitos museus que mantêm seu papel de narrar a história dos primeiros ou mais destacados conterrâneos, e os feitos fantásticos que ocorreram no lugar, consolidando uma visão do poder constituído sobre a história.

Yes, nós também temos museus

No Brasil, os museus vieram junto com a família real portuguesa, mas começaram a se consolidar no Nordeste, com o surgimento do Museu do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano. Em Goiás, segundo levantamento de 2010 do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), existem 60 museus em 28 cidades. Goiânia reúne a maioria (17), enquanto Goiás e Pirenópolis têm, respectivamente, 5 e 6.

Entre os museus de Goiânia, encontramos estabelecimentos diversos, como o MAC (de arte contemporânea) e o MAG (de arte goiana), o Zoroastro Artiaga (histórico) ou o Memorial do Cerrado. A capital goiana conta ainda com museus de biologia e zoologia, além de museus a céu aberto, como o Beco da Codorna, com seus grafites; e a Praça Universitária com suas esculturas.

Já na cidade de Goiás, temos museus que lembram a história do período colonial e seus tempos de capital e ouro, como o Palácio Conde dos Arcos e o Museu das Bandeiras. Em Pirenópolis, a religiosidade dá o tom, com os museus do Divino, das Cavalhadas e de Arte Sacra. Em outras regiões do Estado encontramos museus temáticos, como o que versa sobre a ferrovia em Pires do Rio, ou a respeito da vida dos goianos desde o século XVIII, em Pilar de Goiás.

Um jeito diferente de entrar na aventura

Um museu pode oferecer formas de conhecer muitas coisas e se envolver com tempos e mundos diferentes. Se nem sempre podemos nos deslocar até os museus, isso não quer dizer que não podemos conhecê-los. Vários deles, inclusive os de Goiás, oferecem visitas virtuais, onde podemos ver um pouco do acervo que guardam. A Secretaria de Cultura do Estado (Secult), além de visitas virtuais, tem mostrado também, no seu canal do YouTube, materiais vindos dos acervos das mais diversas unidades culturais – e não só de museus. Enquanto não podemos ir pessoalmente, que tal fazer um roteiro e conhecer museus daqui e do mundo todo, fazendo você mesmo uma viagem inusitada?

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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