Entrudo, Zé Pereira e Trio Elétrico: pular Carnaval (ou não) também é ver a História

Celebrar com música, fantasias e alegria não é exclusividade brasileira, mas a festa da carne na “terra brasilis” modificou-se muito desde suas origens até a atualidade, com influências diversas e misturas de modos e gostos de festejar.

O calendário no começo do ano sempre é consultado com a questão: quando cai o Carnaval nesse ano? Mas esse ano foi um pouco diferente já que, com a pandemia, os festejos foram oficialmente adiados, o que não é a primeira vez que acontece.

No Brasil, convencionou-se afirmar três coisas: que temos o maior Carnaval do mundo, que o Carnaval é uma característica particularmente brasileira, e que o ano só começa depois do Carnaval. Pelo menos duas dessas afirmações são exageradas, já que o Carnaval tem origem em festejos europeus, até mesmo pré-cristãos, e foram adaptados em cada região que foi sendo ocupada por eles durante a expansão colonial a partir do Século XIV.

E afinal, cai quando?

O Carnaval é uma festa que não tem data fixa. Na verdade, ela depende de um cálculo introduzido pelo Papa Gregório na intenção de reorganizar o calendário da cristandade e dar-lhe uma certa "previsibilidade" e significado "refinado" para a data maior do cristianismo, a Páscoa, pois assim separou a comemoração da Pessach judaica.

Este cálculo leva em conta o equinócio da primavera (data que o dia e a noite têm durações iguais, de 12 horas) e a primeira lua cheia depois desta data. O domingo seguinte a esta lua é dia de Páscoa. A partir daí, 47 dias antes temos então o Carnaval. Fácil, não?

Adeus, carne!

Mas não podemos ignorar que o Carnaval, geralmente visto como uma “compensação prévia” da pretensa “abstenção da carne” exigida dos fiéis no período da quaresma católica, também tem seus equivalentes em outras religiões. Podemos lembrar que entre os judeus encontramos o feriado do Purim (comemorado em 14 de adar no calendário judaico, coincidindo em 2021 com o dia 27 de março no calendário gregoriano que usamos tradicionalmente).

Mas o Carnaval é uma celebração notadamente de espaços cristãos. Vemos celebrações bem animadas desse tipo nos EUA, Colômbia, Uruguai (que conta com uma cidade onde o Carnaval é uma celebração de mais de 40 dias!), Caribe, Portugal, Alemanha, Suíça, Benin, Cabo Verde e até mesmo na Índia, no estado de Goa, além das lembranças óbvias do Brasil e da Itália, com o tradicional Carnaval de Veneza.

A alegria no Velho Mundo

Em algumas regiões da Europa, os dias que antecediam a Quaresma eram intensos: as mulheres tomavam o poder em algumas cidades, reis eram eleitos pela população. Mesmo os signos mais visíveis de distinção eram invertidos: os jovens das aldeias ou vestiam-se de mulher ou com roupas ao avesso ou ainda com tecido de saco, tingiam-se de cinzas das fogueiras de preparação dos embutidos de porco para o período da semana gorda e entram nas casas, assustando as pessoas, comendo e bebendo.

Na Quarta-feira de Cinzas, eles entram na cidade em cortejo ao manequim do "Carnaval", levavam-no para igreja principal e queimavam, junto com as máscaras do lado de fora dela, dando início aos lamentos da Quaresma.

Uma festa brasileira, com certeza

O Carnaval no Brasil pode ser visto como um campo de disputas sociais, não só por ele derivar de antigas “festas dos loucos” que durante a Idade Média a ordem era subvertida, mas mesmo essa festa foi ganhando novos contornos com o passar dos anos.

Até o idos do Século XIX, os festejos eram conhecidos como entrudo (um velho costume português que subsiste ainda em algumas localidades tanto no Brasil como em Portugal), onde as pessoas jogavam água cheirosa (ou não) nos passantes, numa mistura de guerra de “limões de cera” e passeata. Juntavam-se também escravizados que nesses dias, para desgosto de alguns membros da elite e do clero, podia fazer batuques e fazer suas próprias comemorações.

Mas as feições do Carnaval brasileiro vão se modificando a partir de 1840, quando começam os “desfiles” das sociedades Carnavalescas. Inspirados no Carnaval francês (que por sua vez era inspirado no italiano), os grupos da elite da corte desejavam mostrar sua adesão aos costumes “modernos”, com desfiles de carruagens enfeitadas e fantasias vindas diretamente de Paris, fazendo também bailes de máscaras nos teatros e mesmo famosas e concorridas guerras de serpentina.

Ao mesmo tempo, a população passou a criar suas próprias formas de diversão nos dias de Momo: o Zé Pereira. Uma manifestação em que mascarados com bumbos e instrumentos diversos que saíam pelas ruas da cidade celebrando os dias antes da quaresma.

Tempos modernos

O Século XX viu muitas mudanças no modo de festejar o Carnaval. As escolas de samba surgiram nos anos 1930-1940 e começaram a mesclar aspectos do Zé Pereira e dos desfiles das “sociedades Carnavalescas”. Nesse cenário, música e desfile se mesclaram com tecnologia e transformaram a folia em um concurso e em um evento muito concorrido.

O Carnaval durante muito tempo foi uma manifestação predominantemente popular, tendo pouca ou nenhuma interferência do poder público. Em geral, os registros brasileiros de intervenção estatal sobre a festa ou se mostraram focados no controle, para “civilizar” e mesmo inibir a festa, ou na associação com ela à medida em que o Carnaval tornou-se um evento turístico e econômico.

Tanto podemos observar que 2021 se notabilizou pelo “cancelamento” dos desfiles e dos feriados carnavalescos, mas isso não foi inédito: tanto 1892 quanto em 1912 o governo tentou transferir o Carnaval, ou para um momento mais saudável – julho – ou por conta da morte de um ilustre personagem como Barão de Rio Branco. Para alegria de diabos, dominós, doutores Burros, arlequins e diversos outros foliões, em ambos os casos, o intento não foi alcançado e o Carnaval foi celebrado duas vezes.

Farra goiana

Goiás é um símbolo das mudanças no Carnaval. Em 1940, podia-se ler sobre as faustosas festas promovidas por jornais da velha capital, notas sobre a alegria vinda da passagem dos Zés Pereiras e das guerras de confete, além das proclamações da “Sua Sereníssima Majestade Rei Momo I e Único” sobre “a era Carnavalesca” que se abria.

Atualmente, as festas deixaram os espaços públicos e são múltiplos os lugares onde se realizam, tornando-se uma febre em alguma medida os “palcos móveis”, que possibilitaram não só a movimentação da festa pela cidade como também pelo calendário, com as diversas “micaretas” e carnavais fora de época que surgiram com força a partir dos anos 1990.

O Zé Pereira, por sua vez, ainda tem espaço, mas agora restrito a algumas cidades do interior, como Itaberaí, onde é um marco importante do período Carnavalesco.

Esse ano, o decreto mais lembrado, mesmo que não seja respeitado, não é momesmo, mas da saúde, que clama por afastamento mesmo nesse período de festa. O samba pode não morrer, mas provavelmente 2021 vai ser uma marca bem grande na memória dos foliões.

Givaldo Corcinio, Historiador – ABC Digital

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