Enfrentando desafios 365 dias por ano: Mulheres comuns no cotidiano

A elas é atribuído o surgimento das cidades e são visíveis as suas contribuições para a vida em sociedade. Mas ainda hoje muitos consideram as mulheres dignas de respeito apenas quando lembradas pela mídia

Certas sociedades, como a judaica, a mulher tem um papel importante na difusão da cultura e das tradições, estando diretamente responsáveis pela memória do grupo. Quais são as memórias que podem suscitar aos goianos nomes conhecidos nacionalmente como Bertha Lutz, Nise de Oliveira e Cora Coralina ou mesmo nomes que, por vários motivos, acabaram circunscritos de alguma forma às terras dos Goyazes, como Leodegária de Jesus, Belkiss Spenciére, Cici Pinheiro ou Santa Dica?

Um dia ou todos os dias?

O mês de março tem um valor simbólico para a sociedade à medida que é o período no qual se lembra do papel da mulher na comunidade. Mas uma discussão corriqueira – e em parte deixada de lado diante dos problemas e desafios do cotidiano – é como lidar durante os outros dias, não simbólicos nem celebrados política e comercialmente. Como lidar com as questões e os dilemas que são colocados para as mulheres pela sociedade nos outros dias do ano?

Mais do que apenas um dia de memória para aqueles que se alinham na defesa dos direitos e das liberdades das mulheres diante de uma sociedade que valoriza o masculino, o dia 8 de março serve como uma provocação para pensar as relações interpessoais e institucionais dentro das relações de gênero.

Das mulheres, a cidade

Alguns estudiosos, quando explicam de um modo generalista o surgimento das cidades, às vezes apontam para as mulheres. Teriam sido elas que se fixariam, plantavam e cuidavam da comunidade, da prole e dos doentes, ao passo que os homens das velhas sociedades tribais tinham por papel sair para caçar, podendo não voltar da jornada devido a diversas questões.

Assim as mulheres estiveram presentes, mesmo que a historiografia às vezes não registre sua atuação ou as reduza a algo ocasional. Nas vilas como São Paulo ou Goiás, durante a colonização do Brasil, por exemplo, as mulheres tinham papel significativo na administração dos negócios familiares, visto que muitas vezes os homens desapareciam durante suas jornadas dentro do território que hoje compõe o Brasil, o Paraguai e a Argentina.

Essas mulheres moldavam a dinâmica das esquecidas vilas do interior brasileiro, onde a presença masculina invariavelmente trazia consigo a brutalidade da colonização, do apresamento de índios e negros. Valorizar apenas o traço “heroico” dos “desbravadores” acaba por ignorar a importância dessas mulheres naqueles espaços urbanizados nas periferias do reino.

De Goiás para o mundo

Estando em vários campos da vida cotidiana, a narrativa da experiência e do olhar feminino aflora nas várias áreas do conhecimento. Goiás teve jornais femininos nos primeiros anos do Século XX. A antiga capital teve jornais como “O Lar” e “A Rosa”, onde mulheres escreviam sobre assuntos diversos sob uma perspectiva única, tendo como colaboradoras, entre outras, autoras como Cora Coralina e Leodegária de Jesus.

A Rádio Brasil Central tem papel também na consolidação de nomes femininos no cenário cultural local com Cici Pinheiro, teatróloga que participou de radionovelas nos estúdios da RBC e posteriormente encenou peças no Teatro Brasileiro de Comédia.

Já Belkiss Spenciére notabilizou-se como pianista, tendo sido uma das fundadoras do Conservatório de Música de Goiânia. Por outra parte, o campo das ideias e da política possui algumas representante que são bem lembradas. Uma delas é Bertha Lutz, militante feminista e da ciência. Temos também Nise de Oliveira, uma das primeiras médicas formadas no Brasil, psiquiatra que revolucionou o tratamento daqueles que tinham transtornos mentais.

Nosso estado também tem figuras femininas que são menos divulgadas, como Santa Dica que, além de organizar sua comunidade em relação a uma religiosidade muito singular, se posicionou de modo alinhado ao poder estabelecido contra movimentos de contestação (no caso, a Coluna Prestes).

No dia 8 de março todas essas histórias – e muitas outras, de empresárias, cientistas, intelectuais e políticas – são relembradas e as mulheres são tema de muita produção. Mas nos outros dias do ano, sem a cobertura midiática e com muitas dificuldades para enfrentar as dificuldades, são histórias de Marias, Anas, Carlas e diversas outras mulheres que marcam a vida das comunidades onde elas se encontram. E aí está o desafio: celebrar, homenagear, valorizar e respeitar a mulher entre o dia 9 de março até o dia 7 de março seguinte.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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