Do livro do ano à Cambridge Analytica: Facebook, as redes sociais e a informação de cada dia

O que um dia foi apenas “uma função” dentro da internet tornou-se quase que seu próprio sinônimo no cotidiano das pessoas. As redes sociais aproximam – e distanciam – pessoas por conta de seus pontos de vista, gostos e percepções de mundo. Mas elas não prestam esse “serviço” gratuitamente

Você já olhou o que seus amigos – e não tão amigos assim – fizeram hoje? Para muitas pessoas, a vida social foi transposta para a internet, e a própria internet é uma série de “lugares” onde se pode ver e ser visto, conversar e expor que se fez e o que se deseja do cotidiano. Essa imagem é distante do que foi pensado para a internet nos anos 1970 e 1980, quando ela começou a servir de “infovia” entre universidades, órgãos do governo e corporações. Mas tornou-se comum nos últimos anos que ao dizer “vi na internet” signifique “vi em uma rede social”. Essa associação fortaleceu-se com a popularização dos smartphones, pelos diversos aplicativos presentes nativamente neles e do acesso à internet mais facilitado.

Mesmo que só tenham se popularizado nos últimos anos, redes sociais estão presentes na vida dos usuários de computadores desde o início das conexões de rede. Até os anos 1970 essas conexões não eram tão comuns e os computadores funcionavam de modo individual, isoladamente. A internet possibilitou uma descentralização das operações informáticas, com informações podendo estar armazenadas em diversos lugares diferentes e sendo trocadas por meio de cabos ou impulsos telefônicos, não precisando de um “computador central” (é essa arquitetura descentralizada que dá origem e sentido à internet). Nesse contexto surgem as BBS (Bulletin Board System), espécie de concentradores de informações onde associados podiam conectar-se a um servidor por meio do conjunto computador pessoal e telefone para trocar recados e notícias com outros usuários e acessar arquivos disponibilizados pelos usuários. Com a chegada da “web” propriamente dita, que tinha no uso de imagens e links para disponibilizar e acessar informações seu diferencial, as BBS perderam usuários. Mas o desejo de trocar informações não diminuiu.

O boom das redes

A partir dos anos 2000 houve uma grande expansão desse tipo de plataforma. Algumas delas bastante especializadas: fotos, vídeos curtos, áudio, “recortes” de outros sites, recados curtos, outras bastante generalistas, acabam abarcando diversas funções, possibilitando a troca de quase qualquer tipo de material entre seus associados.

Mesmo possibilitando a troca de informações entre usuários, especialistas e estudiosos não consideram serviços e sites de mensageiros (Messenger, ICQ, MSN, IRC, WhatsApp, Telegram ou afins) como redes sociais, pois o acesso e difusão de conteúdos neles é restrito.

Assim, foram sites como Orkut, rede criada pelo Google e que funcionou entre 2004 e 2014, que possibilitam a expansão de um modelo de uso da internet que juntou mensageiros, notícias, BBS, fóruns de discussão e diversos outros serviços existentes na internet em um só espaço.

Domínio do Facebook

Atualmente a rede social que tem mais usuários ativos é o Facebook, com quase 2 bilhões e 800 milhões de usuários no mundo. Criada em 2004, a rede social tem muita história para contar e mostrar. Além dos usuários diretamente conectados a ela, a empresa conta ainda com outros dois aplicativos muito populares, a rede social de imagens Instagram, com aproximadamente 1 bilhão e 170 milhões de usuários e o aplicativo de mensagens WhatsApp, com 2 bilhões de usuários no mundo – 120 milhões só no Brasil.

O surgimento do Facebook (ou face para os usuários mais “íntimos” da rede de Mark Zuckerberg) está ligado com o costume norte-americano das escolas criarem um “livro do ano” com fotos e pequenas notas sobre seus alunos e acontecimentos do ano anterior a publicação. No caso, quando ele criou o Facemash (espécie de predecessor do Facebook), cuja ideia era comparar duas imagens de estudantes cadastrados no sistema. Desde sua origem os sites passaram por questionamentos legais sobre seu acesso e uso de informações pessoais daqueles que estavam cadastrados na plataforma. Se a primeira versão do seu site (o Facemash) teve que ser fechada, sua segunda experiência (o Facebook) tornou-se um sucesso planetário, recebendo investimentos de grandes corporações e ela própria passando a ser uma corporação poderosa.

Novos problemas

O crescimento do Facebook e de outras empresas, como a Amazon e a Apple, tem causado preocupações sobre o uso das informações criadas dentro dessas plataformas. Em 2018, eclodiu o escândalo da “Cambridge Analytica”, quando se tornou público que havia um acordo entre a empresa de mesmo nome e o Facebook de coleta de informações e direcionamento de publicidade, causando acusações de manipulação de eleições em lugares como Brasil, Índia, Reino Unido e EUA.

Mais recentemente, acusações contra a política de replicação de mensagens, que possibilitou a difusão de conteúdos enganosos, se abateu sobre o WhatsApp, aplicativo de mensagens que é propriedade do Facebook e o anúncio de compartilhamento de informações entre as duas plataformas aumentaram ainda mais as críticas sobre a companhia de Zuckerberg.

Se antes dos computadores e da internet as redes sociais demandavam a presença física dos indivíduos nos lugares, deslocamento e um grande investimento para “aparecer bem na foto”, com plataformas como o Facebook, esses investimentos se juntaram a um outro, menos visível para muitos, que é a cessão de informações e dados que são, no fundo, o verdadeiro produto que as redes sociais podem explorar de seus usuários.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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