Diário do Isolamento XVI – “As coisas que encontramos pela vida”

...e em minhas passadas largas, acabo sempre por encontrar coisas pelo caminho.

Já tem alguns anos que cultivo o hábito de correr de manhã (5 km quase religiosos). Tal atividade me traz muitos vários benefícios: disposição para enfrentar o dia, ajuda a combater o estresse, é uma forma divertida de me manter em forma, um momento zen no qual deixo me levar pelos caminhos e vou pensando na vida e suas variáreis. Chego inclusive a ter algumas boas ideias para escrever e até mesmo um ou outro projeto já saiu dessas pernadas.

Claro que nestes dias de isolamento tenho me utilizado mais daqueles aplicativos de malhação em casa e também de exercícios que acabei bolando por aqui. E a sala de estar praticamente se transformou em uma academia: apoio no sofá, supino com as cadeiras, abdominal com as pernas presas no rack da tevê e por aí vai.

Mas gosto mesmo é de correr... Porque tem aquele adendo, imponderável como uma chuva que me surpreende às vezes; gosto de correr ao ar livre (esteiras só em caso de extrema necessidade, como agora) e em minhas passadas largas, acabo sempre por encontrar coisas pelo caminho. E quando digo isso não estou falando das esplêndidas alvoradas que se descortinam ou de excêntricas e belas formas que as nuvens ou o céu matinal imprimem de forma impressionista na abóbada celeste, mas de pequenos objetos que acabo achando, itens que algum desatento perdeu. Coisas que encontramos pela vida.

Já teve praticamente de tudo: dinheiro (tá, era uma moeda de não me lembro quantos centavos da década de 70, mas isso para alguém que coleciona moedas como eu, é lucro), pulseira, um ingresso de show – da Pecuária, quem é de Goiânia há de entender – etc. Mas três itens acabaram chamando muito minha atenção, o que, aliás, motivaram esta mini crônica: dois terços e um pingente.

No caso dos dois primeiros, encontrei-os naqueles dias em que tudo parece que vai ruir, que o sustentáculo de seu mundo está por um fio e nenhuma saída parece ser boa o bastante para a enrascada em que você está. Acabei considerando que eram algum tipo de lembrete lá de cima, para que me reconectasse com minhas crenças, que olhasse para o alto com esperança e para a frente com fé, como que dizendo “Ei, isso também passa”. E aqueles momentos ruins se foram. Não sem muito esforço, sem fazer a minha parte e segurar a onda, mas passaram.

Outra coisa que encontrei, meses atrás, foi o tal pingente, e no momento em que o vi, juro, sua imagem me levou de imediato a lembrança de Raul, o Maluco Beleza, fazendo uma paráfrase com “Tu és o MDC da minha vida”:

...aquele seu “pingente” escrito Love, ainda hoje me comove... 

Quando voltar a correr na rua vou prestar mais atenção nas sarjetas. Quem sabe não ache motivo para o bom poema que nunca escrevi...

Fiquem seguros.

P.S.: Apesar de as projeções estarem instáveis como dias nublados e ainda não sabermos o que nos reserva o futuro, como estamos chegando na Páscoa – que significa a ressureição, o ressurgimento de Cristo, aos cristãos; para o judeus é a Pessach, que lembra a libertação de seu povo do Egito – na espera de que nossos dias renasçam e nos libertemos do isolamento (no devido tempo, após debelar a epidemia, que ainda assusta), decidi dedicar estas duas últimas crônicas antes do domingo pascoal a assuntos mais amenos e lembrar de olhar a beleza das coisas. E finalizo aqui com os belos versos que me foram enviados pela poeta Lêda Selma, escritos durante o isolamento:

Emoção adoecida
                         Lêda Selma

Como falar de poesia
se ela se encasulou?

Como fazer poesia
se o verso está resfriado?

Como chamar a poesia
se o poema perdeu o tino,
se o silêncio é apenas grito,
e o grito, fosso sem fundo?

Não quero cotoveladas
nem chutes
nem metro e meio
riscando distâncias tantas.

Quero de volta o abraço,
quero o aperto de mão,
quero o beijo,
o cochicho,
o bate-papo,
o calor
de um riso não virtual.

Cadê o olho no olho,
a perspectiva do agora,
o 'Deus nos acuda' diário
e até a rotina que sobra?

Quero a vida na berlinda,
o sol a me perfurar, queimoso,
quero o contágio do sonho
e amigos perto, de novo.

Texto: Cristiano Deveras/ABC Digital