Diário do Isolamento XI – “A beleza que só se vê nas sombras”

...vejo no céu que escurece as primeiras estrelas aparecerem, trazendo o véu noturno e sua beleza me envolve como um abraço bom.

O humano moderno é um escravo da rotina, fiel seguidor do relógio. Pensei isso hoje de manhã, enquanto preparava para entrar no ar, com o quadro de literatura que faço na rádio. Fazer isso de casa, por telefone, destoa completamente do ambiente de estúdio, onde, além de confraternizar com os colegas de trabalho, ajuda a quebrar um pouco o clima, porque fazer participação ao vivo às vezes complica. No meu caso, que sou mais estabanado do que a maioria das pessoas, isso acontece com frequência.

Recebo a chamada da rádio, tudo pronto, deixo livros e anotações à mão, um suspiro fundo e mando ver. Driblo o eco que a ligação dá para minha própria fala – e do barulho que minha sombra faz, do lado da porta – e relembro mais um autor da terra, alguém que com suas palavras levou conhecimento e cultura aos nossos rincões. Finalizo com um poema e após findo o contato, estou novamente sozinho. Engraçado que minutos antes estava falando para milhares de pessoas, nas ondas do programa “Fala Goiás em Rede”, que é retransmitido por dezenas de rádios por todo o estado.

Sem minha rotina, não sei bem o que fazer. Aliás, saber eu sei, o difícil é me adaptar a esta nova rotina onde, de casa, tenho que fazer meu trabalho à distância. Enquanto esquadrinho as atualizações dos números da Covid-19 pelo mundo afora, percebo que minha sombra agora é minha única companhia.

Está agora do meu lado e me olha com certa languidez. Devo estar deixando transparecer um tanto de enfado, outro de desânimo mesmo. O dia segue como os outros e apesar disso e do fato de algumas notícias não ajudarem em absoluto, de que por vezes só consigamos pensar no porvir e temer por ele, temos que perseverar. Achar algum ânimo, continuar.

É neste momento que minha sombra se levanta e começa a agir: fuça nas minhas anotações, dá um tapa na caneta, esbarra – e quase derruba – minha garrafa d´água, passeia pela bancada como que dizendo “ei, você, nada de deixar a peteca cair!”

Decido trocar o assunto da crônica – que já estava esboçada desde a noite – e parto uma análise melhor dela, da sombra:

No dicionário Infopédia da Língua Portuguesa encontramos 15(!) definições entre literal e figurado para sombra, mas me atenho à terceira: “parte de uma superfície que deixou de receber luz porque entre ela e o foco luminoso se interpôs um corpo opaco (sombra projetada). Leio em voz alta para minha sombra e ela parece gostar dessa, afinal, fala da sombra clássica, a que retrata seu corpo e sempre apronta nos desenhos animados.

Sombras podem ser igualmente utilizadas para despedidas jocosas: “vai pela sombra!”; sempre imagino essa frase como um resquício dos dias em que a humanidade andava mais a pé do que em carros climatizados.

Falar em sombra também me lembra de minha sobrinha Júlia, que está sempre fazendo ou acompanhando vídeos de dicas de maquiagem e este item – a sombra – é sempre um dos mais populares: paletas de sombras, esfumaçado, corretivo; os termos utilizados flertam com aqueles da pintura em tela.

“O Sombra” nomeia um personagem de histórias policiais, criado para o rádio na década de 1930 – onde chegou a ser dublado por ninguém menos que Orson Welles – tendo sido retratado em quadrinhos, séries de tevê e filmes, sendo que no mais recente deles, de 1994, foi interpretado por Alec Baldwin.

Aliás, sombras remetem a vampiros e outros seres sobrenaturais, e o cinema tem centenas de películas a respeito deles. Mas, para ficarmos “na sombra”, lembro de duas comédias que as levam nos títulos: “Sombras da noite”, outra parceria Tim Burton / Johnny Depp (onde Eva Green rouba a cena, como de hábito) e o hilário “O que fazemos nas sombras”, de Taika Waititi, mais conhecido por estas bandas por ter dirigido “Thor: Ragnarok” e pelo oscarizado “Jojo Rabbit”. Bom lembrar que ao menos os dois primeiros estão disponíveis nas plataformas de streaming. Isso me sugere que a noite provavelmente será regada a refrigerante, pipoca e filme, que é para espairecer.

Pois não podemos nos esquecer de desligar um pouco de tudo isso também; apesar de estarmos isolados fisicamente, felizmente a tecnologia tem sido muito útil – ontem mesmo tive a oportunidade de fazer um bate papo virtual, o famoso chat, que serviu para amainar saudades e dizer que a distância não diminui o afeto.

Lembrar disso parece me deixar melhor, pois minha sombra, que estava deitada aqui do lado, quase adormecendo, dá um bocejo longo, se estica e coloca-se de pé, como que me chamando para também me levantar, dançar sem música no meio da sala, sacudir o corpo... Aceito seu convite e vou mais além, chego na sacada e ao aspirar um pouco de ar puro – sim, ainda temos ar puro! – vejo no céu que escurece as primeiras estrelas aparecerem, trazendo o véu noturno e sua beleza me envolve como um abraço bom. E, especialmente nestes tempos, temos que ter olhos espertos para encontrar a beleza onde quer que se encontre, de descobrir seus esconderijos, pois ela pode estar bem aí do seu lado, como uma sombra...

A minha sombra se chama Sofia, tem quatro patas, pelo branco e só mia quando está com muita fome.

Fiquem seguros.

Texto: Cristiano Deveras/ABC Digital