Contestação e aceitação: várias facetas do rock’n roll

Surgido de ritmos periféricos, o rock se espalhou pelos Estados Unidos e pelo mundo, refletindo ideias e inquietações

 “Uma cidade musicalmente fervilhante”. Era assim que um grande jornal do Rio de Janeiro se referia à Goiânia, em 2015. E a efervescência ali declarada vinha de um cenário musical que nem sempre é associado à região Centro-Oeste do País.

Ao invés de uma sonoridade muitas vezes vinculada à música sertaneja,  estereotipada numa ruralidade representada por elementos do agronegócio e de relações afetivas tempestuosas, o cenário musical goiano que chamou a atenção de jornalistas tinha sua marca em guitarra, baixo e bateria fortes e urbanos, com letras que representavam menos a “roça” ou a “balada”, e mais os conflitos e o mal-estar de jovens buscando expressar insatisfação com o cotidiano.

Era o rock’n roll, que mostrava um Goiás (e um Centro-Oeste) diferente daquele apresentado pelas corporações de mídia e duplas famosas por tocar em rádios do País inteiro, às vezes à custa de “incentivos financeiros” concedidos pelas gravadoras.

 

Escolha o seu rock’n roll

Falar sobre o rock’n roll é sempre tocar no anseio de expressão que jovens de algum lugar e época tinham em relação ao mainstream dominante. Se na origem a mescla de ritmos musicais de negros das regiões periféricas dos Estados Unidos fomentou um novo modo de se divertir e, em última instância, de se comportar; com a expansão dos meios de comunicação e a difusão do rock pelo mundo, outras formas de olhar para a realidade começaram a interferir na produção musical “roqueira”.

Foram gerados estilos e atitudes que colocam dentro de um mesmo estilo (pelo menos em tese) Jimmy Hendrix, The Beatles, Rolling Stones, Black Sabbath e tantas outras bandas e cantores, cuja citação aqui seria extenuante. Cada país do mundo e cada época podem oferecer ao apreciador um conjunto de músicos que usou, e usa, da sonoridade e da estética do rock (em suas diversas variantes), para difundir suas ideias, suas criticas à sociedade, seu mal-estar individual ou coletivo, ou simplesmente para divertir a audiência.

Assim, podemos ouvir desde heavy metal cristão até composições contemporâneas ao sabor do rock dos anos 1950 (chamado de rockabilly), ou reinterpretações de clássicos do rock’n roll com instrumentações que fazem referências a instrumentos medievais (o chamado bardocore).

Da imitação à inovação

No Brasil, o rock chega com o aumento da influência norte-americana. após o fim da Segunda Guerra Mundial. Ao mesmo tempo em que desembarcam no Brasil pracinhas e aviadores retornados da Itália, a presença de empresas e produtos culturais vindos dos EUA se faziam mais visíveis.

A juventude brasileira se encontrava pressionada entre as tradições de uma sociedade rural, provinciana e fortemente hierárquica; e os anseios por liberdade, protagonismo, modernidade e transformação que se faziam perceber por meio de filmes, discos, transmissões de rádio e programas de TV (estes a partir dos anos 1960). Esses, trazidos para o País pela indústria cultural, que acabou transformando os modos de ser e agir dessa juventude, impressionada e tocada tardiamente pelo american way of life.

Durante as décadas de 1950 e 1960, muito da produção de rock no Brasil era uma adaptação direta ou indireta de materiais americanos ou britânicos. São poucas as produções com cores mais nacionais, ou mesmo que fugissem do “modelo vencedor” do Iê-iê-iê.

Com o surgimento de algumas novidades depois de 1968, é apenas em meados dos anos 1970 que o rock brasileiro se estabelece de fato, com temáticas mais locais nas letras e misturas inusitadas na melodia. Os trabalhos musicais se distanciavam da cópia, mas se aproximavam das experimentações que tomavam conta do cenário roqueiro pelo mundo, como o Movimento Tropicalista, e bandas, como Secos e Molhados e Almôndegas, além de cantores como Raul Seixas.

As pedras rolam longe da voz do sucesso do passado

A revolução cultural dos anos 1960 chegou tardiamente no Brasil, devido ao fechamento cultural do País em um cenário de regime de exceção. Mas os anos 1970 e 1980 foram de grande expansão do rock no Brasil, onde ele ganhou a simpatia da mídia e do público. Surgiram muitas bandas que transpareciam a insatisfação, especialmente da juventude, com o momento nacional.

Uma ditadura na UTI viu o surgimento de grupos questionando a ordem, fossem de modo debochado, lírico ou simplesmente vocalizando a repressão vivida nos anos anteriores. Mas junto com a expansão das vozes por meios das bandas de garagem, as grandes gravadoras e o “cenário cultural estabelecido” absorveram muitos desses roqueiros.

Esses músicos, passados seus dias de empolgado estrelato, fazem como os personagens da letra do grupo pré-punk rock paulista “Joelho de Porco”, que já em 1983 dizia em alto e bom tom, que “Quando tiver passado bastante tempo, nós vamos nos encontrar. E nós vamos nos divertir à beça, rindo de tudo isso (…) nós vamos ficar sorrindo, recordando o nosso passado E dizendo de vez em quando: No nosso tempo é que era bom”.

Se essas vozes foram absorvidas e convertidas pelo mainstream em representantes de algo que parece o inverso do que defendiam em suas letras, a revolução tecnológica que tem lugar nos anos 1990 em diante possibilitou o fomento e o surgimento de bandas fora dos eixos tradicionais do rock.

Isso fez com que movimentos como o “Mangue Beat”, de Pernambuco, e a cena independente goiana ganhassem visibilidade no País todo e mesmo fora, mantendo a efervescência vislumbrada pelo jornalista carioca, mesmo sem os grandes holofotes da “indústria cultural do Sudeste”.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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