25 de março consolida o papel do movimento LGBTQ+ na sociedade

Gay deixou de ser um estrangeirismo para “alegre” e passou a ser uma definição que pode fortalecer a demanda por direitos ou ser uma sentença de morte numa sociedade machista

A pergunta que muitos se fazem ao depararem-se com o termo orgulho que é utilizado nas manifestações ligadas ao “Dia do Orgulho Gay” é “por que orgulho?”. Ou, de um modo mais incisivo, “orgulho de quê?”. Os militantes costumam responder que ele está em oposição direta à vergonha que muitos tentam impor aos indivíduos que não estão encaixados no padrão geral atribuído a sexualidade humana.

O tema é controverso, já que normalmente o tema da sexualidade é envolto de brumas de moralidade e tabus. Entretanto, para os militantes, as manifestações que têm lugar no dia 25 de março, tido como Dia Nacional do Orgulho Gay, não estão focadas em sexo e suas possibilidades e sim no modo como a sociedade brasileira encara o diferente.

Origem da data

A data de 25 de março está associada ao lançamento do programa “Brasil Sem Homofobia”, o primeiro do seu gênero no Brasil, em 2004. O programa foi uma iniciativa governamental realizada a partir da pressão destes grupos e da própria sociedade civil e procurava atender demandas por segurança e de atendimento governamental, abrangendo desde aspectos de saúde pública até questões jurídicas da existência de toda população LGBTQ+.

As associações de pessoas LGBTQ+ (sigla que engloba lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais, queer e outros grupos mais) e diversas organizações de pesquisa indicam que o Brasil é o país que mais mata homossexuais e pessoas transgênero no mundo. Paradoxalmente, é também uns dos países que mais consomem produções pornográficas com protagonistas LGBTQ+. Isso mostra ao mesmo tempo um descompasso entre aceitação e objetificação não só do sexo quanto das diversas formas de viver a sexualidade e os afetos.

A resistência

A sexualidade é uma questão que se faz registrada deste os primeiros contatos entre europeus e nativos do continente americano ou escravizados trazidos da África. A homossexualidade – ou menos uma sexualidade menos sob o controle e padrão moral europeu – aparece como motivo de repreensões e mesmo assassinatos.

Durante o passar dos anos, essa reação foi sendo mais ou menos contundente. As transformações do Século XX reforçaram mais ainda não só a busca por liberdade nas formas de expressar o afeto e a visão de mundo como a busca por um respeito social e institucional. Nos anos 1960, nos EUA, houve distúrbios sérios em que a comunidade gay confrontou forças policiais por conta do modo truculento como esses últimos atuavam contra essa comunidade. A chamada “Revolta de Stonewall” serve de inspiração e é rememorada anualmente com as marchas do orgulho gay pelo mundo.

No Brasil, também houve manifestações semelhantes nos anos 1980, especialmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, ode grupos de lésbicas e gays se manifestaram contra “operações de limpeza” que as polícias efetuavam nas zonas boemias da cidade, buscando “tirar de circulação” toda uma população marginalizada que se reunia nesses espaços.

Luta por igualdade

As expressões exteriores de “orgulho gay” materializam-se nas grandes paradas que acontecem por todos os continentes, relembrando a “Revolta de Stonewall”, mas elas também podem se fazer perceber quando na busca por possibilidades de acesso e oportunidades igualitárias.

As pautas do movimento gay também afetam outros grupos que se percebem limitados em acesso à justiça, saúde ou segurança. Movimento negro, das mulheres ou de sem-teto por vezes abrigaram também discussões caras à população LGBT, sendo mesmo espaços onde tais discussões começavam surgir e questionamentos sobre a estrutura social se faziam presentes.

A organização no Brasil

É com a aproximação do fim da ditadura militar brasileira nos últimos anos da década de 1970 e os primeiros da década de 1980 que o movimento LGBT (à época ainda identificado somente como gay ou GLS) começou a se mostrar mais organizado. O movimento gay também ganhou visibilidade com a publicação de revistas e jornais destinados para esse público específico, como o jornal “Lampião”.

O surgimento de grupos de ação, orientação, acolhimento e pressão política, como o Grupo Gay da Bahia ou o SOMOS, em São Paulo, serviu de sustentação para a construção de alternativas e o reforço de uma solidariedade entre pessoas que se viam sob as mesmas ameaças: violências diversas, falta de oportunidades, discriminação social e institucional.

A felicidade de se ser o que é

Gay é uma palavra com origem no francês antigo. Seu significado é feliz, alegre. Foi esse sentido que fez com que o “gai” francês fosse tomado de empréstimo pela língua inglesa e esteja presente em alguns dicionários com tal sentido.

Em português, o alegre francês está, entre outros lugares, no gaiato que protagoniza um cotidiano menos sisudo. Mas para ser alegre e feliz, o dia 25 de março – e todos os outros – demanda das pessoas o respeito ao diverso, aos indivíduos e ao convívio social no qual todos possam confiar que não serão estigmatizados, violentados ou mortos por aquilo que são.

Givaldo Corcinio – historiador – ABC Digital

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