Diário do Isolamento III - “Os velhos e os novos paradigmas” 

“O vírus, diferente das pessoas, não faz distinção de raça, cor, credo...”

Abro o site de notícias e a primeira manchete me dá calafrios: 

Itália registra 627 mortes em um único dia, novo recorde de vítimas. 

Ao mesmo tempo em que fico condoído com a situação de nossos irmãos europeus, um estalo me bate na nuca ao lembrar do quanto italianos e brasileiros são parecidos em muitos aspectos (vale lembrar que a imigração dos primeiros nos séculos passados acabou por ajudar compor o DNA de regiões do Brasil, como Sudeste e Sul).

Na mesma matéria, um médico romano, especialista em doenças infecciosas, elenca algumas características de seus conterrâneos, que acabaram por minar os esforços para o isolamento e consequente contenção da epidemia. Diz ele que os italianos tem um “modo de vida irresponsável”, “sem senso cívico” e “um pouco rebelde” que acabaram sendo os vilões deste folhetim apocalítico. 

Aquele estalo na nuca tornou-se arrepio, pois outra matéria dá conta que o ritmo de infecção no Brasil está seguindo os passos de lá. E me pego comparando as mesmas características, que se apresentam e muito no tupiniquim dito raiz. 

Deixo o computador de lado para dar uma arejada, aproveitar para ir à sacada e respirar um pouco de livre e explorar – tal James Stewart em Janela Indiscreta - a vizinhança que até dias atrás não me trazia nenhuma curiosidade. Mas meu cérebro insiste em continuar avaliado nossas semelhanças com os italianos. 

E as vejo na rua abaixo, quando Dona Inocência, um doce de pessoa, com seus 72 anos de ternura, distribui abraços em todos os que passam, sendo sempre um ombro amigo para os que precisam. 

Agora não pode abraçar, Dona Inocência. Espere uns dias, talvez semanas e depois volte a ser esse anjo em forma de pessoa (e não correr o risco de virar efetivamente um).

As enxergo em frente ao supermercado, vendo Seu Petrônio do alto de seus 75 anos e aquele aperto de mão forte, de quem levantou fazenda do nada, fazendo tudo com as aquelas mesmas mãos. Evite contato, Seu Petrônio. Mas este é da casta dos “meio rebeldes”, aqueles que acham que “isso tudo é frescura, eu sou é macho!”. 

O vírus, diferente das pessoas, não faz distinção de raça, cor, credo, opção sexual. O que vier, ele traça. 

E me dou conta que, para mantermos nossos velhos, temos de cultivar os novos.

Os novos hábitos. De higiene: lavar, na dúvida, lave de novo. De proximidade: afastar agora, para nos reunirmos depois. De solidariedade: se não puder fazer algo fisicamente, que seja o virtual, como músicos e outros artistas que estão se apresentando em “lives” nas redes sociais, tentando diminuir este paradão que é o confinamento. Ou então, participar de iniciativas como a campanha da OVG (Organização das Voluntárias de Goiás), de arrecadação de fundos para combater os efeitos desta crise. 

Outro clique e corro de volta ao computador, pois preciso terminar a crônica. Automático, passo antes no banheiro, desconfio do pequeno fiapo de sabonete e já ia abrindo outro pacote novo quando me olho no espelho e vejo alguém parecido com Melvin Udall, o escritor obsessivo-compulsivo vivido por Jack Nicholson em “Melhor Impossível”. É isso, chega de Coronavírus por hoje. Aproveito as lembranças da sétima arte e parto para o sofá, pipocas e suco de limão para acompanhar. 

O que vou assistir? Para espairecer, “Kingdom”, da Netflix, pois zumbis gore coreanos são muito legais... 

Texto: Cristiano Deveras/ABC Digital